BMW R1150GSAmish World
visto por Maria Isabel, leitora do site, viajante, e
constante colaboradora em nossas paginas

 

IMPRESSOES DE VIAGEM
Amish Country

Voce ja ouviu falar desse lugar ou desse povo?! Os nao-muito jovens que assistiram o filme "A Testemunha", que rodou em 1985, com Harrison Ford, ja! Foi naquela ocasiao que minha curiosidade foi depertada para conhece-los.
Conhecer esta populacao que vive como se fosse ha 300 anos atras sempre me pareceu que seria uma experiencia e tanto. E foi!
Apos os preparativos costumeiros de passagem de aviao, verificacao de opcoes como trem, onibus, horarios, aluguel de carro, acessos, dificuldades x possibilidades, munida de mapas e outros detalhes, embarquei para o Este americano.
Saindo de Boston antes que uma tardia neve de abril alcancasse aquela cidade, fui para Filadelfia, onde cheguei de trem e de la partiria para Lancaster, a maior cidade proxima de Amish Country, interior da Pensilvania. Alcancei Filadelfia pela madrugada, com 0ºC, muita chuva e vento, e ali mesmo na estacao ja tive uma amostra local da beleza desta cidade, mas isto e assunto para um outro artigo sobre impressoes de viagem.
O trem partiu 5h da manha, e no caminho nao consegui escapar de uma quase nevasca que branqueava as margens do caminho e a paisagem local tornando a noite ainda mais fria. A noite estava muito escura e se misturava com a neve tornando tudo de um cinza-chumbo. Um misto de funesto e romantico ar se misturavam permeando a noite naquela pequena viagem de trem. Dividida entre a beleza da neve e a ideia que tinha de ver aqueles campos verdes maravilhosos, e assustada pela possibilidade de ter que dirigir em meio aquelas condicoes, coisa que nunca havia feito, me deixaram momentaneamente assustada, mas logo me acalmei tendo a certeza que coisas boas iriam acontecer, fossem qual fossem as condicoes climaticas quando chegasse a Lancaster.
Enquanto esperava o carro locado na estacao de Lancaster percebi que, embora muito frio, nao havia neve alguma na cidade e que o sol comecava a aparecer, meio timido, mas que aos poucos ia tomando conta com ares de quem vinha para ficar.
Saindo do centro desta cidade, me dirigi para o Farm Breadandbreakfast - uma especie de hotel-fazenda - onde tinha minha reserva, escolha que nao foi por acaso.
Embora meio sonolenta pela noite insone, ja comecei a perceber e a me deslumbar com a beleza da paisagem a minha volta: fazendas enormes, muito verdes - de um verde que o sol esplendoroso daquela manha fazia questao de tornar ainda mais brilhante -, com casas enormes de estilo colonial americano, na sua maioria brancas, que se perdiam de vista na imensidao daqueles campos.
O hotel-fazenda-residencia nao era uma tradicional casa colonial americana branca, mas era muito confortavel e acolhedora, como toda casa de fazenda deve ser. Logo fui recebida pela dona da casa - esta e a filosofia dos breadandbreakfast, uma residencia que abre suas portas para receber os convidados, digo, os hospedes.
Munida de mais mapas, roteiros e dicas, fui em "busca dos Amishes". Mais andava em meio aquelas fazendas, mais me deslumbrava. A cada 2km, pausa para fotos. As estradas em excelente condicoes em meio as fazendas era outro fator de excitacao. Porcoes de neve ainda eram vistas em alguns poucos lugares, dando um toque especial naquele cenario.
Primeira parada: Lititz, para aproveitar os mais saborosos pretzels da regiao. Os pequenos e cobertos com chocolate foi a opcao escolhida, claro!
Mais um pouco de estrada e entao, uau! O primeiro buggy Amish, aparece a minha frente. Uma carruagem bem simples, preta, toda fechada, puxada a cavalo e que anda a 15km por hora. Mesmo olhando-os de frente, mal se consegue distinguir os rostos que estao ali dentro, sendo, muitas vezes, de criancas e mulheres.
Continuei a trajetoria ate o Amish Village, um centro comercial que tem artesanato Amish, museus, centros com documentarios e tudo que se imagine relacionado a eles.
Continuei o passeio em meio as fazendas, agora, na sua maioria, de propriedade Amish. Cheguei ao local indicado onde sairia um tour guiado para um contato mais proximo com uma fazenda Amish e seus proprietarios. Antes, assisti a uma pequena peca onde foi mostrado um pouquinho da cultura Amish, seu comportamento social e religioso. Neste local tambem pode ser apreciado o interior de uma residencia Amish, sua decoracao e costumes, o que serve de modelo para os visitantes, umas vez que turistas comuns nao tem acesso a isso de outra forma.
Os buggies ficaram cada vez mais comuns. As criancas estavam saindo das escolas e tentavamos fotografa-los a partir do onibus. Chegamos a uma tipica fazenda Amish. Fotografa-los diretamente? Seria uma agressao a eles. O maximo que pude fazer foi usar o Zoom 300mm que possuia e tentar aproximar a imagem o maximo possivel.
Conversar com eles parece algo estranho e inatingivel em funcao das muitas estorias que se ouve, mas no contato que tivemos a nevoa de misterio se desfez. Eles tem uma filosifia de vida bastante diferente da nossa, e verdade, mas no fundo sao tao - ou mais - normais do que nos, pessoas de uma sociedade culturalmente aceita pela maioria. Ate porque, e impossivel para eles viverem 100% a parte da nossa comum estrutura social. Eles tem de alguma forma contatar e mesmo, de negociar, com todos da regiao.
Apos o passeio com o grupo, me dediquei mais um pouco a observar o movimento do povo Amish e continuar me deliciando com toda aquela paisagem. Em torno de 5h da tarde eles comecam a se recolher e entao comecam a circular em um numero maior juntos. Adolescentes, jovens, mocas e rapazes, criancas, homens, em buggies ou a pe; e um bom momento para fotografa-los. Sempre de longe, para nao perturbar a paz local.
Tambem entre 17h e 17h30min fecham todas as lojas, e os restaurantes locais nao passam das 19h. No verao eles excedem ate 20h30min. Ha que se correr para conseguir um lugar, mas de qualquer maneira ha muitas e boas opcoes. A comida tradicional e basicamente alema e holandesa, dada a origem deste povo.
O mais tradicional artesanato da regiao, confeccionado pela dona-de-casa Amish, sao os famosos Quilts, uma especie de patchwork, trabalho feito com pequenos pedacoes de tecido, magnifico e surpreendente, quer pela harmonia das cores ou pelo desenho, pecas que vao de simples guardanapos a colchas e cortinas, tudo costurado a mao.
Frequentam as escolas patrocinada pela propria comunidade Amish. Todos vestem-se com roupas escuras e, como sao padronizadas, o Amish borda seu nome no interior do casaco para que nao se confundam seus proprietarios. O sexo masculino usa chapeu desde muito pequeno, sendo preto ou de palha especial e clara, e quando casam passam a usar barbicha que nunca mais tiram, e o sexo feminino usa uma touca branca muito leve ou um lenco escuro na cabeca.O namoro acontece dentro de rigidas normas. Sexo antes do casamento? Nem pensar!
Eles nao usam energia eletrica e por consequencia nao escutam radio nem assistem televisao, o que iria de encontro a vida simples e voltada para a familia que e a ideia central que orienta a vida dos Amishes. Mistura de religiao e filosofia de vida, esse povo tem uma vida regrada, voltada ao trabalho, e modesta, embora as fazendas sejam de fazer inveja.
Telefone, uns poucos publicos espalhados pela regiao, o que possibilita contatos de emergencia com a "civilizacao normal", incluidos naquele, o parto, doenca ou morte. As casas nao tem tapete nem carpete, tao pouco ar-condicionado ou outras facilidades modernas. Sao utilizadas formas alternativas de energia.. As roupas sao secas num varal externo, neste caso, um habito bastante nosso conhecido.
A mulher Amish, alem de se dedicar ao lar e produzir os quilts, tambem ajuda no plantio e na colheita quando isto se faz necessario.
Os trabalhos religiosos sao desenvolvidos na casa de cada familia.. Todos tem seu altar e se revezam nessas atividades, realizada aos domingos.
A convivencia com "os ingleses", assim chamados os vizinhos nao-Amishes, e pacifica e amistosa.Todos pagam impostos ao governo americano, mas os homens nao sao obrigados a servir nas forcas armadas. Alguns se rebelam e escolhem a vida moderna, vao estudar em universidades e deixam suas familias. Ainda assim, na Pensilvania, onde esta a maior concentracao, eles sao em torno de 22 mil pessoas e o total no Pais, 85 mil.
Tambem existem os Mennonites, de cultura parecida com aos Amishes, mas bem menos rigidos em suas regras e bem menos conhecidos ou famosos.
Depois desta tao desejada aproximacao com os Amishes, tinha uma outra coisa em mente que era fotografar algumas das pontes cobertas da Pensilvania, nao tao famosas como as Pontes de Madison, mas ainda assim tao charmosas quanto. Datadas de seculos passados e destruidas aos poucos, essas pontes estao concentradas basicamente nesta regiao proxima a Lancaster e contam um pouco da historia da colonizacao americana.
Agora o por-do-sol pintava de dourado aquelas brancas casas e verdes campos. Uma imagem inesquecivel! Perdida naquela contemplacao quase que nao consigo restaurante aberto, mas nao podia sair de la sem comer a tradicional comida regional; entao encontrei um restaurante, no minimo interessante, na verdade um hotel, cujos quartos eram vagoes de um antigo trem, e o restaurante, claro, tambem um vagao, atendido por um pessoal muito simples e amistoso, no coracao de Amish Country.
A noite desceu e tinha que voltar para o meu hotel-fazenda. Mas acontece que me perdi por um detalhe e fui parar num bairro de Lancaster, onde passei por uma rua que mais parecia uma pintura - ou seria escultura?! da Renascenca, tal era a perfeicao e beleza arquitetonica das residencias, alguma coisa que seria dificil descrever e, para fotos, ja estava muito escuro. Saint Ann e o nome da rua. Bendito engano que me levou para mais este pedaco de paraiso.
Cheguei por volta de 22h e nao preciso dizer que dormi como uma rainha naquela confortavel cama, com todas aquelas imagens agora incorporadas as minhas lembrancas; e que acordei pela manha com o barulho de alguem na cozinha preparando o meu personalisado cafe, uma mordomia que eu ja havia esquecido como era boa.
Voltei com a sensacao de ter vivido uma pequena e gostosa aventura no interior da Pensilvania, que me surpreendeu pela beleza - algo bem acima das minhas expectativas -, e com o desejo de voltar. Para visitar, naturalmente, nunca para morar, pois sou muito urbana para desejar ficar mais do que tres dias no interior, por mais bonito e rico que seja o lugar.

Maria Isabel Martins
abril, 2001

 


Amish bed and quilt


Amish bridge


Buggy


casas e buggy


Escola


Fazenda amish


Fazenda


Fazenda


vista de uma fazenda


Estradas e fazendas


Eu


Rara foto de um amish.


Village


Neve em abril, no gramado


Village


Village


Fazenda